Dia 9 de dezembro entrou na história do país, pelo menos para a história de todos que hoje precisam de um transplante ou poderão precisar no futuro. Nesta última sexta-feira, na minha opinião, aconteceu um milagre e presenciamos a mão do homem atuar com inteligência, solidariedade, competência e justiça.

Como vocês já devem saber, uma família brasileira se declarou doadora na quarta-feira da semana passada. Houve muita ajuda, em especial do pessoal do Rio Transplante e do pessoal de um hospital aqui do Rio. Tudo foi providenciado para que pudesse ocorrer a primeira doação, salvar o Arthur e dar um grande passo na direção e no sentido da cultura de doar para salvar.

 

 
Depois de parecer que Arthur seria salvo, infelizmente, na quinta-feira se interpôs na frente da vontade dos brasileiros, da nossa Justiça e da nossa medicina uma confusão gerada pelo desconhecimento da resolução do Conselho Federal de Medicina - CFM. Felizmente, o saber chegou e, com a ajuda dos homens e, acredito, com a força de um Milagre, a situação evoluiu.

Eu, minha família e, não tenho dúvida, todos os brasileiros estamos muito agradecidos.

Havia um documento, um simples papel, que por desconhecer ou desconsiderar a resolução do CFM determinava que o Sistema Nacional de Transplantes – SNT, mesmo que seus profissionais tivessem essa vontade, não poderia atuar na doação de órgãos de anencéfalos. Eu pedi muito para esse papel se queimar em meu colo, queria fazer com que sumisse. Sexta acordei chorando, pensando em deixar o país para tentar estar em qualquer lugar onde não tivesse papel semelhante. Chorava, claro, pela dificuldade de salvar meu filho, mas, também, porque amo este país e pensar em não mais voltar me derrubou. Levantei da cama e fui tentar derrubar o documento.

Foi uma luta, uma batalha (Minha guerra vai até o fim da cirurgia do Arthur. Minha vida e a dele vão se ajudando mutuamente até quando Deus quiser). Mas o Ministério da Saúde, que eu hoje acho que também é o Ministério, de forma figurada, da Justiça, evoluiu (Estou completamente de acordo com o diretor de Atenção Especializada do Ministério, Amâncio Paulino de Carvalho. Ele afirmou que não foi mudança, mas uma evolução de posição.). Evoluiu em sua sabedoria e reconheceu a resolução CFM 1.752/04 (veja aqui), e deixou claro, muito claro, que a partir de 09/12/2005, muitas vidas poderão ser salvas e muitas mães poderão ter, ao menos, uma esperança de dar uma vida para iluminar outra. Os homens deram um importante passo.

Estou muito grato aos senhores ou senhoras mais humildes, que viram, souberam e acreditaram na doação, na salvação do Arthur e de muitos outros. Estou grato a todos. Foram muitos. Políticos, Médicos, Jornalistas, Advogados, Familiares, Amigos, Crianças, Jovens, Adultos e Vovôs e Vovós. Todos ajudaram. Obrigado e parabéns pelas atitudes. Pelos Gestos, Grandes.

Meu sentimento, contudo, tem um agradecimento especial. Para mim, se só um gesto de gratidão me restasse, o daria para o bebê doador. Em tão pouco tempo neste mundo, fez um Milagre. Sei que não sou a pessoa que pode definir isto, mas, não posso, também, deixar de expressar meu sentimento. Veio à Terra, abriu uma linda estrada de salvação, de doação, e se foi. Quantos de nós ficamos aqui por tanto tempo e não conseguimos um gesto tão lindo. A família que se declarou doadora também tem especial lugar no meu coração e, por mais que hoje não seja um coração perfeito, no coração do Arthur.

Vou encerrar de forma breve. Não foi pela força dos homens que Arthur ainda não conseguiu seu coração. Assim tinha que ser, não posso ir contra: o coraçãozinho do doador era pequeno para o grande, forte, o Touro Guerreiro. Na sexta-feira, a força do Arthur foi sua fraqueza. Arthur precisa de um coração de um doador de pelo menos, hoje, 3 quilos e 60 gramas, porque nosso filho, meu e da minha Bia, está crescendo.

Como quero e ele vai crescer, em qualquer caso, se é que tenho direito de pedir algo, por favor, as possíveis mães e pais de coração, declarem-se urgentemente como doadores para a salvação. Peço pela continuidade urgente.

Rafael, pai do Arthur. Minha esposa, Bia, leu e assina comigo. Meu filho, acredito, concordará com seus pais.

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